"É para ser fácil, não uma coisa inacessível": Autores rompem barreiras na literatura independente em Juiz de Fora
- 17 de abr. de 2024
- 10 min de leitura
Atualizado: 19 de ago. de 2024
Escritores dividem vivências, memórias, conhecimentos e vozes de diferentes grupos sociais em meio a luta por acesso e visibilidade
Por Alice Andersen

A literatura independente é um processo autônomo, autoral de escrita e publicação de obras literárias que vem crescendo nos últimos anos entre autores de todo o país. Em Juiz de Fora, não é exceção: a cidade possui um cenário literário próprio, com autores e editoras locais, produzindo obras dos mais diversos gêneros e estilos. Muitos escritores, por exemplo, usam da Literatura para expor a realidade local, dar voz a diferentes personagens, compartilhar vivências, aprendizados e expor questões sociais. Ao mesmo tempo, eles enfrentam um longo caminho por visibilidade, além de lutar pela divulgação e publicação de seus escritos.
É o que conta o escritor Artur Laizo, atual presidente da Liga dos Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora (LEIA JF). Para ele, fazer literatura não é uma arte fácil. “É uma arte individual, uma arte solo e o escritor sabe escrever, mas precisa divulgar a arte e precisa mostrar o que faz”, ressalta. A porta de entrada e saída para eles é em grande parte as plataformas digitais. “Essa divulgação é muito difícil, então acaba que usamos a mídia e as redes sociais”. Embora a autonomia seja crucial, a interdependência surge como um elemento fundamental para o autor independente, aponta Laizo.
“É sempre bom, com certeza, para quem está começando: alguém que vai ler para você, alguém que vai te ajudar, que vai corrigir erros, que vai te dar a opinião, tanto elogiando, quanto criticando”
A Liga, fundada em 2015, conta hoje com pelo menos 33 membros. Considerada uma das primeiras no município, a comunidade surgiu justamente da necessidade de reunir e promover maior visibilidade à produção literária local. “A LEIA JF tem o objetivo de divulgar a literatura da cidade. Nós temos contadores e escritores de história infantil, poetas, romancistas, cronistas, contistas e ilustradores. Então tem de tudo um pouco. Em 9 anos de existência, a gente já fez muito trabalho, onde tem uma festa literária, vamos e divulgamos a literatura de Juiz de Fora”, comenta o escritor.

A trajetória de Laizo na literatura independente começou quando ele ainda era criança. No gênero do terror, ele revela sobre o que diz seu o primeiro livro, publicado em 2016 e disponível na Amazon. “Criei uma trilogia que chama ‘A mansão do Rio Vermelho’, que acontece em uma cidade que fica aqui entre Juiz de Fora e Ubá uma cidade fictícia, mas o segundo livro, apareceu o vampiro Douglas, que é de Juiz de Fora e fica debaixo do Coreto no Parque Halfeld. Ele foi transformado em vampiro em 1850, quando Juiz de Fora virou Juiz de Fora e ele foi dando alguns pitacos e dando algumas sugestões da história da cidade até os dias de hoje”, afirma ele, que já publicou 12 livros do mesmo gênero. Autor de 64 anos, Artur também fala da importância de continuar escrevendo, apesar das dificuldades. “Não pare de escrever: publique e mostre ao mundo sua arte.”

As ideias semeiam
Não importa a idade, há aqueles que estão lançando o livro pela primeira vez aos quase 80 anos, como o professor e psicanalista Maurílio Nogueira. No dia 6 de abril deste ano, ele entrou na literatura independente com o lançamento do livro 'Semeando Ideias', no antigo Museu do Crédito Real, em Juiz de Fora. A obra traz a discussão realizada dentro das faculdades para o ambiente social e compartilha o conhecimento de forma mais acessível. ”Meu livro reúne textos de épocas diferentes que foram apresentados em congressos no Brasil e fora do país. São questionamentos que vínhamos fazendo na área de Filosofia, Psicologia e Educação, e eu trouxe justamente para pensarmos fora da caixa”, destacou Maurílio. Os escritos buscam refletir sobre a vida, a fé e o trabalho, com impacto voltado para aqueles interessados ainda na linguagem.


“O próprio título já diz, ‘Semeando Ideias’, que me baseei na parábola de Jesus sobre o Semeador e também na minha profissão, voltada para o ensino, esperando que possa gerar sobretudo um impacto pedagógico”, diz ele, que também é músico independente em Juiz de Fora, e junta a literatura e o ritmo para criar poesias cantadas autorais, explorando novas linguagens.
“A literatura, como a piada, o humor, a linguagem científica, a filosófica e a religiosa, é uma forma de linguagem com suas próprias características e objetivos. Cada uma dessas linguagens possui nuances e funções, e não podemos esperar que uma fale o que a outra está dizendo. Na literatura, não buscamos um dogma ou uma verdade absoluta”, afirma.
Confira um trecho da entrevista de Maurílio:
*Edição por Alice Andersen
Acesso e valorização
Semeando Ideias” está disponível para todos na internet e ainda contará com um livro falado. “Ele acaba de ser colocado na internet e no YouTube. Para as pessoas com deficiência visual terem a oportunidade de ler, eu fiz um áudio livro de 180 páginas, que já está nas plataformas digitais”, revelou Maurílio. A obra foi lançada pela editora independente Provérbio, que surgiu há pelo menos dois anos no município e tem em sua equipe o editor, diagramador e capista Fernando Raine, responsável pelo livro do psicanalista. Ele conta que esse elo entre o escritor e o editor é essencial.
“Em pleno século 21, temos muitos escritores e há sempre essa lacuna entre editor e escritor. Isso não pode acontecer, o mercado está aberto, mas obviamente é uma tendência de que ele também queira atingir aquelas pessoas que já tenham uma certa visibilidade. As editoras pequenas e a independentes estão para dar a mão para esses escritores, abraçá-los e trazê-los ao mercado editorial, para que tenham visibilidade e, contudo, possam em algum momento se tornar um ‘best-seller’, por que não?”, sugere Raine.
Assista um trecho da entrevista de Raine à revista:
*Edição por Alice Andersen
No evento de lançamento de Maurílio, também estava o amigo, escritor e leitor Wagner Lacerda, que disse ser um grande momento, especialmente porque ainda é difícil um apoio maior entre os artistas. “Sempre converso com ele todo dia pelo WhatsApp, ele produz muita coisa, toca também compõem várias músicas e resolveu juntar tudo isso em um livro, que está sendo lançado hoje. Estou muito feliz de prestigiar. Tem muita gente escrevendo em Juiz de Fora, é uma cidade muito bacana em termos de cultura. Falta às vezes os próprios artistas se apoiarem para fazer as coisas acontecerem, tem muita coisa legal mesmo, vale a pena conhecer”, reforça ele.

No meio da pandemia da Covid-19, em 2022, Lacerda divulgou o seu livro “O Grande Evento”, que possui exemplares na Casa da Autoria em Juiz de Fora e na Flayve, site da editora da obra. “Como todo o livro de contos, ele tem algumas histórias independentes, só que eu inventei algumas conexões entre os contos, que depende muito de cada leitor: cada um que lê, vê uma coisa diferente, é bem divertido. Foi uma missão trabalhosa, mas bem gostosa”. Membro da Academia Juiz-forana de Letras e da LEIA JF, o autor parafraseia sobre o poder da literatura no cotidiano.
“Os livros são uma saída para esse buraco civilizatório em que a gente andou se enfiando, e eu acho que vale muito a pena continuar acreditando”
Memória afetiva e gerações
Em entrevista à revista Escritus, o jornalista e mestrando Gabriel Bhering, que está no gênero dos livros de ficção juvenil, afirma que estreou na literatura juiz-forana recentemente. O livro “Circo de 98” é a sua primeira obra, lançada em 2023, e conta a história de uma garota chamada Sabrina, que encontra por acaso o diário de Murilo, seu pai, e descobre tudo sobre a adolescência dele, em uma narrativa que expõe conflitos geracionais. “O que era comum na adolescência do Murilo, é diferente do que era normalizado e aceitado na adolescência da Sabrina. Ela tenta questionar quando está lendo o diário do pai dela: ‘Nossa, como que aquilo foi machista, como que aquilo foi errado’.
"Um livro que te convida a pensar”, diz.
Gabriel enfatiza que a trama não se resume a isso. “Ao encontrar o diário do pai, Sabrina descobre que na adolescência ele foi um garoto totalmente diferente do que ele é hoje, ele sonhava em ser astro do rock. Namorava a sua mãe, Simone, na época, e passou um circo ali na cidade com uma tal de Bhrisa, pela qual ele se apaixonou, só que agora ele é só um advogado entediado e ela fica se questionando ‘Por que aconteceu isso?’. Então, vamos lendo com ela a história do pai dela e se aventurando pelos anos 90”, contou Bhering. Para construir os personagens e as reviravoltas, o jornalista comenta ter utilizado referências locais, conhecimentos e convivências próprias.

“Gosto muito de ir ao circo, meu pai sempre me levou, então, eu sempre quis escrever uma história que vivesse nesse universo, mas era muito difícil porque eu nunca vivi o circo e veio a ideia de alguém que tem a sua vida atravessada por ele, o Murilo”, declarou ele. “Passei a minha adolescência lendo livros juvenis, assistindo séries que se passam nos anos 90 ou nos anos 2000 como Gilmore Girls, livros da Paula Pimenta, como Fazendo Meu Filme, entre outros. Sempre estive muito inserido nesse meio e tenho preferência por produções antigas, como a Malhação, da época da VagaBanda”. O escritor sustenta que tinha o sonho de publicar um livro, mas que a oportunidade veio mais tarde por ter tentado com editoras tradicionais.
“Escrever o Circo de 98 vem depois de um momento de várias tentativas. Eu já tinha tentado escrever outros livros e descobri que o mercado tradicional, que temos na nossa estante, é muito fechado”

No processo de autopublicação, Gabriel cita a colaboração de amigos e familiares para que a edição fosse tomando forma. Sem uma editora, o jornalista relata que teve desafios e que cada pessoa foi um braço muito importante do projeto. “Percebi que o melhor caminho era publicar independente. Eu contei com a ajuda dos meus amigos: a minha colega do ensino médio leu o livro, a minha mãe, Vilma Bhering, também foi uma das leitoras, a minha professora de língua portuguesa Ana Maria Bastos foi a revisora do livro. Convidei uma amiga minha do curso de Jornalismo que também é formado em Moda, a Letícia Meyer. O Mateus Domith que me ajudou com as fotos da orelha do livro. O Jáder Loures que deu voz a uma canção que está presente na obra, e a Geovana Santiago, que interpretou a Sabrina e um pequeno clipe da história. Sem eles, eu não teria conseguido”, ressalta.
Apesar de tudo, o autor lembra da importância de se fortalecer a literatura independente e atenta para o baixo custo da autopublicação em plataformas. “Escrever um livro independente é uma forma mais fácil para novos autores começarem no mercado, assim como uma forma mais atrativa e acessível para os leitores consumirem a literatura. O meu livro é vendido por apenas R$ 1,99, que é o valor mínimo exigido pela Amazon é o valor que ela exige para você hospedar o produto lá, então, é um livro super acessível”. Ele ainda acrescenta que locais dificilmente ganham protagonismo na literatura e por isso, decidiu incluir a princesinha de minas.
“Senti falta de histórias que se passavam em cidades menores, interioranos e assim também surgiu a vontade de escrever o Circo de 98, que começa a história em Ponte Nova [MG] e depois vai para Juiz de Fora”
Confira abaixo um pouco da entrevista de Gabriel Bhering:
*Edição por Alice Andersen
‘Quem fala de noiz é noiz'
“Por quê o Rap feminino não tem visibilidade? E o esporte feminino não tem visibilidade? Nenhuma arte feminina tem a visibilidade? E mulheres são descartadas quando é visível a idade?”, assim começa o livro 'Eu Grito Para Fazer Voar os Versos' da artista independente, escritora e cantora juiz-forana Laura Conceição. Segundo ela, o nome da obra vem da inspiração dos movimentos de poesia falada e do rap.
"O nome do livro vem do slam, desse movimento da poesia falada do trap, rap, do hip hop. Nós muitas vezes temos que gritar muito alto para sermos ouvidas, principalmente dentro da cena de Literatura e a gente vem cavando esse espaço de reconhecimento todo, até por questões territoriais, pelo fato da gente estar às vezes fora do eixo, precisamos gritar para sermos ouvidos”, explica Laura.

A obra da artista foi publicada pela Editora Fala, de São Paulo, especializada em divulgar autores da oralidade em todo o Brasil, e historicamente silenciados. “Eu faço parte de uma coleção que se chama Poesia Viva”, diz ela, que conta como começou na literatura independente.
“Através do rap, para quem não sabe, significa ritmo e poesia e considero também o rap um tipo de poesia, essa coisa da rima dos pokeWorld, da palavra falada, e aí fui para os slams, que são as batalhas de rima e acontecem muito nas ruas, também perto das rodas de rimas. Tudo é muito junto nesse movimento. Vivemos em uma geração muito midiática, então às vezes o jovem não vai ler um livro, mas às vezes vai ficar um tempo vendo uma pessoa recitar uma poesia, sabe?”, pontua a escritora.
“Essa nossa questão com a Literatura falada vem muito dos nossos ancestrais, quando contavam histórias das nossas avós que nem todas são letradas, mas que tem muita história para contar, tem muita literatura ali na vida e na veia”, fala Laura sobre a resistência em um espaço restrito às elites locais.



“Literatura é para ser fácil, literatura não é uma coisa inacessível e a gente luta para que cada vez mais ela chegue em todo mundo. É uma ferramenta de transformação social e de acessibilidade”, reflete ela. “É preciso quebrar um pouco essa ideia de poetas mortos, e começar a ler poetas vivos.”
O objetivo da produção literária independente é se expandir nas periferias e para o Centro da cidade. “Mesmo que queimem a escrita, não queimam a oralidade”, já dizia Nego Bispo, uma das referências de Laura. No livro, a autora traz clássicos como ‘Eu não sou um cara’, ‘Espelho’, e poesias que, “desde 2017 até hoje chegaram na galera através da fala e da voz. Agora, estão chegando através de publicação", celebra a autora. “O que é muito importante para que nós possamos ler nós. Que a gente possa também estar sendo livres para poder ser lidas por aí”.
Assista abaixo um trecho da entrevista de Laura Conceição à revista Escritus:
*Edição por Alice Andersen
A escrita é feminista
A escritora e redatora do portal Colabora, Júlia Pessoa discute temas voltados para o movimento feminista em Juiz de Fora e no Brasil. Autora do livro “Heteronímia”, escrito e publicado no ano de 2017, ela relata que sempre teve vontade de escrever um livro e que a obra foi o resultado de uma junção de outros textos seus, escritos em portais e também produzidos de forma inédita. Com a lei Murilo Mendes na cidade, Júlia conseguiu o financiamento necessário para realizar a publicação na época.

Além disso, a autora explicou a necessidade de trazer as questões de gênero para dentro da Literatura, sem se reduzir à esfera política e ideológica. No episódio abaixo, confira a entrevista completa concedida à revista Escritus.
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