EDUCAÇÃO
Literatura independente precisa chegar às escolas públicas de Juiz de Fora
Enquanto grande parte dos livros nacionais são discutidos em sala de aula, maioria da produção literária local continua reduzida a eventos literários
Por Alice Andersen

Biblioteca pública Murilo Mendes, em Juiz de Fora. Foto: Alice Andersen/Revista Escritus
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Nas prateleiras das bibliotecas públicas escolares de Juiz de Fora, um cenário se repete: a predominância de livros nacionais, conhecidos e tradicionais, muitas vezes direcionados para algum objetivo específico, como uma prova de vestibular ou mais uma aula de literatura sobre os maiores escritores do país e do mundo. Enquanto isso, um universo rico e diverso de histórias independentes de qualidade escritas por autores locais, ainda espera encontrar seu espaço de formação cultural para além das feiras literárias e clubes de leitura.
Milhares de alunos em Juiz de Fora têm acesso limitado à literatura local. Um levantamento da Secretaria de Educação revelou que há em média 50 mil estudantes da rede pública municipal e estadual. Estes alunos têm contato com livros tradicionais indicados pelos professores, e os acervos das escolas contém em sua maioria os clássicos da literatura.
A subnotificação e a falta de um sistema de catalogação para livros independentes, principalmente em bibliotecas escolares, também dificulta a seleção dessas obras e até mesmo de estudos. Em Juiz de Fora, elas estão presentes apenas em bibliotecas públicas comunitárias, como a Biblioteca Municipal Murilo Mendes, e muito se deve à Lei Murilo Mendes (nº 8525 - de 27 de agosto de 1994), própria da cidade, que é uma das únicas legislações a promover o incentivo ao tipo de literatura no local através de editais de fomento.
O Escritus visitou a biblioteca e conversou com Eduardo Faria, membro do Departamento de Memória e Patrimônio Cultural da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa), que confirmou a presença de obras no acervo que fortalecem a memória e a cultura do município. “Nossos editais visam fomentar a produção e divulgação de obras que valorizem as vozes marginalizadas. Possuímos um acervo de publicações sobre Juiz de Fora, mas poderia ter mais”, disse.
Atualmente, as obras produzidas por meio da lei têm dificuldade em chegar às mãos dos estudantes e também ao ficarem limitadas à seção de memória das bibliotecas públicas, tornam-se quase inacessíveis ao público, restando interesse apenas aos pesquisadores e servidores locais.
Bibliotecárias de instituições de ensino admitem ainda não estarem familiarizadas com esse tipo de literatura no contexto escolar. Para Ana Carolina, bibliotecária na Biblioteca Central da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestre em Biblioteconomia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), seria um passo muito importante para democratizar o conhecimento dos alunos. Segundo ela, “os que não são de editoras tradicionais poderiam chegar mais aqui, porque em biblioteca acadêmica a gente tem muito material das editoras clássicas, que são aquelas indicadas pelos professores”.

Bibliotecária Ana Carolina. Foto: Reprodução/Instagram @acscaetanobib
Carolina completa: “Por ser um espaço de status, parece meio contraventor. Eu acho que os autores independentes também poderiam trazer mais doações para nós, em primeiro lugar partindo deles”. A bibliotecária reforça dizendo que “aquelas pessoas que são formadoras de opinião, os professores, a própria biblioteca poderiam divulgar mais isso, que querem esse tipo de material e não um material da Saraiva ou da Companhia das Letras como sempre”.
Já Vera Lúcia Barradas, bibliotecária há quase 10 anos na Biblioteca Central do Instituto Estadual de Educação de Juiz de Fora (IEE JF), que funciona do 6º ao 3º ano do Ensino Médio, explica como é trabalhada a leitura nas escolas públicas do município e observa a mesma questão. “Os professores de português e literatura trabalham o livro para dar teste todo bimestre. Aí já é dado o livro, como o que nós temos aqui 500 Malalas, por exemplo. Já é dado para todos os alunos levarem para ler, para fazerem ficha, fazerem teste”, diz ela, que destaca a importância de se também escolher obras pedagógicas e do gosto dos alunos.
Atualmente, o acervo tem mais de 4 mil livros. Vera Lúcia destaca que quando tem uma verba, é passada uma lista para eles opinarem qual livro eles gostariam. Assim, eles aceitam aquele do gosto do aluno, avalia se está dentro da idade, se o tema não vai sair do limite do que a escola pode querer de um aluno. Ela afirma que como bibliotecária facilita muito o empréstimo.

Prédio do Instituto Estadual de Educação. Foto: Alice Andersen/Revista Escritus
A professora de Literatura e também bibliotecária do instituto, Rossane Villar, falou ao Escritus sobre esse déficit. “Não sei se é porque nas bibliotecas que eu não trabalho ainda, mas não tem muitas literaturas voltadas nesse sentido, e eles não têm muito interesse em procurar não, mas até que seria interessante eles conhecerem mais, valorizarem a literatura independente e local. E o que os alunos realmente procuram é voltado para versões de filmes, como Harry Potter ou Percy Jackson ou livros bem infanto-juvenis”, afirmou ela.
Inserção pedagógica
Caso fossem implementados nas escolas públicas, os livros juiz-foranos também poderiam passar por uma seleção para serem inseridos no plano pedagógico, de acordo com a professora, que reforça a ideia de que haja mais literatura independente nas escolas públicas, mas de qualidade, porque, segundo ela, “também precisa ter um rigor de selecionar para não ser uma coisa parcial, que é publicado, porque é um amigo da pessoa ou porque é um edital que sai sugerindo que algumas publicações sejam feitas.”
Ainda de acordo com Villar, “se for uma literatura de qualidade, infanto-juvenil que corresponde com a idade deles, é bacana fomentar, mas de acordo com o interesse deles também, porque a prioridade mais do que valorizar a cultura é valorizar a juventude, a criança. É realmente eles terem acesso”, reforçou.
Essa linha de pensamento é compartilhada pela também bibliotecária Claudineia Macedo da biblioteca Anexo do instituto, que funciona do 1º ao 5º ano, embora lá a literatura seja mais voltada para o público infantil. “É diferente do Ensino Médio. Então, você trabalha mais o lúdico e a ilustração. Nós temos livros que só tem a leitura de imagens e eu sempre falo com eles. ‘Se você não sabe ler ainda, vocês não são obrigados a saber ler. A leitura é um caminhar’. Juiz de Fora, que é a cidade em que eles nasceram, que eles vivem, eu sempre falo com eles ‘que aqui tem grandes escritores’”, disse Macedo à revista.

Bibliotecária e professora Claudineia Macedo. Foto: Alice Andersen/Revista Escritus
Literatura que transforma
José Renato Amorim é um dos poucos escritores e poetas que visita escolas para compartilhar sua obra com estudantes. Além de ir a escolas de regiões próximas a Juiz de Fora, ele já foi à Escola Municipal Presidente Tancredo Neves, à Escola Municipal Professor Helyon de Oliveira, e tantas outras da cidade. Entrevistado pela revista, o autor do livro “João Camaleão” e pós-graduado em Literatura Infantil, que faz contação de histórias do livro para as turmas, percebe o poder de transformação que a literatura independente provoca nesses espaços, como o do próprio personagem da sua obra. Além disso, ele reitera que Juiz de Fora é um celheiro de escritores.
“Recebemos um legado de Bituca: ‘Todo artista tem de ir aonde o povo está’. Um grande desafio da literatura e da poesia, especialmente, é quebrar as bolhas. Ao estar nas escolas encurtamos as distâncias. Ao colocar o livro nas mãos das crianças e contar histórias estamos lançando a semente para a formação de leitores”, declara o autor. Para ele, quanto ao sentimento das crianças, a percepção é a melhor possível. A prova disso são os recontos espontâneos e os comentários em casa. “É gratificante ver como a poesia as tocou profundamente.”
Ainda nas palavras de Amorim, os professores precisam de livros mais diversificados dentro da sala de aula para que os estudantes possam se identificar com a cultura do próprio município. “Visitando escolas públicas e privadas, conheci muitos professores dedicados que aplicam muitos recursos pedagógicos à literatura: rodas de conversa, recontos, peças, saraus, desenhos, música e muito mais. Os professores sabem trabalhar, mas o que falta é o livro na mão”, revela o poeta. Ele não tem dúvidas de que a literatura ajuda a criar a memória afetiva. “Com a literatura produzida aqui, os alunos podem ter uma formação cultural profunda e com afetivos laços de memórias com a cidade”, disse.
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Escritor independente João Amorim. Foto: Reprodução/Instagram @jramorim.autor
Inclusive, no artigo “Letramento Literário como Forma de Resistência da Escola”, publicado nos Anais da Associação Brasileira de Literatura Comparada (2013), a ideia de literatura alternativa no ensino é sugerida através do letramento literário. “A escola pode ser considerada uma instituição de luta democrática, na medida em que reserva ao letramento literário um espaço significativo entre as suas atividades, aproxima os alunos dos bens culturais e contribui com o desvelamento e busca de alternativas para a superação das arbitrariedades sociais, para o autoconhecimento e para a formação crítica, afetiva e intelectual”, escreveu a doutora em Pedagogia, Elisa Maria Dalla-Bona.
Outra autora juiz-forana que vem mudando esse cenário e marcando presença nas escolas públicas é a Ana Paula Torquato, do livro “Essência: Menina, Mulher, Preta”, que segundo ela, surgiu de uma necessidade de dar voz às experiências e resistências cotidianas das mulheres negras, historicamente silenciadas pela sociedade. “A obra traz questões profundas sobre raça e gênero, temas essenciais para fomentar discussões sobre racismo estrutural e o papel das mulheres negras na sociedade, além de questões sociais. Ao abordar essas vivências com sensibilidade, os estudantes teriam a oportunidade de se conectar com histórias muitas vezes ignoradas”, ressalta ao Escritus.
Pensamento crítico
Através dos contos, ela traz à tona a vida de mulheres negras que viveram e vivem na cidade, conectando suas histórias às transformações sociais locais. Segundo Torquato, resgatar as memórias afetivas fortalece a identidade cultural e promove uma reflexão sobre racismo e desigualdade.
Ao contar o feedback de uma professora que se emocionou com seu conto “Menina do Pai” e até mesmo pensou em trabalhar ele com seus alunos no ano passado no Centro de Educação de Jovens e Adultos Doutor Geraldo Moutinho (CEM), a escritora se sentiu honrada em poder contribuir para perspectivas autênticas e engajar alunos com uma abordagem antirracista necessária no ambiente escolar já logo cedo. “Livros independentes podem enriquecer as escolas por trazerem perspectivas mais próximas da realidade dos alunos”, completou ela.

Escritora juiz-forana Ana Paula Torquato. Foto: Reprodução/Instagram @anatorquatos
Recordar um texto literário implica em recordar também um fato, um acontecimento, pela vinculação histórica que possuem, tendo em vista que a literatura pode ser um meio para recordação, para rememoração, para resgate. "Embora a literatura não tenha o compromisso de se constituir como realidade, a leitura de uma representação literária que mantém uma relação ‘trabalhada’ e ‘complexa’ com certos eventos, podem levar o leitor a indagar-se sobre um passado”, diz o trecho do artigo “A Literatura como um lugar de memória: reflexões e aproximações”, do pesquisador José Valtemir Ferreira da Silva, publicado na revista Travessias Interativas (2023).
Criando memórias
Segundo a pesquisa, a literatura aparece como um fator de preservação das histórias e resistências de um lugar. “A memória cultural encontra na literatura um de seus vetores materiais, uma das formas, um dos lugares de expressão da memória coletiva em que se pode transmitir e reconstruir o passado”, escreve Valtermir. Uma das entrevistadas pelo Escritus, Ana Carolina acrescentou que as bibliotecas, como espaço de memória de uma comunidade ou de uma instituição, devem priorizar a oralidade, tema muito presente na literatura alternativa, e porém mais foge à memória coletiva.
“É uma temática que eu particularmente gosto muito e que acho que faz muita falta nos acervos nossos. Não temos nas bibliotecas universitárias em geral material sobre história oral, aquela história que foi baseada em depoimentos, que foi passada e construída através da oralidade, de gerações, através da escrita. Então, isso tem um peso histórico e um peso de construção de individualidades”, comentou a bibliotecária da Biblioteca Central da UFJF. Para ela, a história oral representa aquele coletivo observado através do olhar de uma pessoa.
Conforme descreve a pesquisadora Ângela Maria Xavier Freitas no artigo “A importância do uso da Literatura como recurso facilitador no processo de aprendizagem”, publicado na revista Perspectivas Sociais (2023), a literatura desde o ensino infantil até a idade adulta promove a formação social e humana e de identidade, de ser e estar no mundo. “A Literatura, como forma de expressão artística e como possiblidade de contato com o que é belo, estético, criativo, contribui para a formação do indivíduo como sujeito social, visto que desperta a sensibilidade, a emoção para a transcendência do que é a sua realidade”.