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 Independentes versus 
 mainstream 

 Por Alice Andersen 

Editoras independentes: como desafiam o mainstream?

No artigo científico, intitulado "Entre lebres e quelônios: o que se entende por editora “independente”, publicado por Ana Carolina da Silva em 2022, as editoras independentes seriam aquelas que proporcionam uma nova conjectura ao ocupar espaços coletivos de resistência em oposição às editoras mainstream.
 
Segundo a Declaração Internacional dos Editores e Editoras Independentes, de 2014, "o editor independente criativo concebe sua política editorial com toda a liberdade, de modo autônomo e soberano. Sua abordagem não é unicamente comercial. Nisso, ele garante, junto com os outros atores da cadeia do livro, uma criatividade renovada, a memória e os saberes dos povos."
 
O esforço pela democratização do livro e por uma edição plural e crítica também recai sobre a editora, que se torna, assim, um artesão essencial da bibliodiversidade. Ela valoriza critérios de qualidade e durabilidade, em detrimento da quantidade e rapidez. 

História das editoras de livros no Brasil

Arte: Alice Andersen, com fontes do artigo científico intitulado "Estudos sobre história editorial no Brasil: breve mapeamento", de Gustavo Souza, publicado em 2023, e do site Writing Tips Oasis.

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​Indiebookday, ou Indie Book Day (conhecido em português como "Dia do Livro Independente"), é uma iniciativa global criada em 2013 para promover a compra e a divulgação de livros de editoras independentes. Todo ano os leitores são convidados a adquirir um livro em uma livraria e compartilhar a experiência nas redes sociais usando a hashtag #indiebookday.

Nas palavras do site do movimento, "há um monte de editoras independentes incríveis por aí, criando livros maravilhosos com toda sua paixão. Mas muitas delas são muito pouco conhecidas. O Indiebookday é uma maneira de ajudar a dar maior visibilidade a elas e mostrar a beleza das publicações independentes".

Movimento Indie Book Day

Foto: Gabriel Guarany/Divulgação

Reivindicação por mudanças
no mercado editorial

A rede de editoras independentes que colabora para fortalecer o mercado editorial e a bibliodiversidade, a Liga Brasileira de Editoras (LIBRE) é, desde 2002, uma associação sem fins lucrativos, apartidária e independente, que representa editoras de todo o Brasil.


De acordo com a presidenta da LIBRE, Lizandra Magon, "a governança – mesmo que não receba essa nomenclatura – está na ordem do dia. Uma das nossas missões, ao propor a bibliodiversidade do mercado de livros – em consonância com a própria diversidade cultural dos mais variados grupos populacionais deste país – é vigiar para que as compras públicas, responsáveis por 70% dos livros comprados no Brasil a cada ano, garantam a possibilidade de nossas associadas concorrerem em pé de igualdade com grandes corporações, muitas vezes multinacionais".

Entrevista com presidenta da Liga de Editoras

Em entrevista exclusiva à revista Escritus, Lizandra Magon explica a dinâmica do mercado editorial brasileiro e do hábito de leitura do público, que no Brasil  não valoriza o livro, lembrando a importãncia da educação. A presidenta da Liga também comenta sobre o papel das editoras independentes na valorização das minorias e das realidades locais, assim como tudo o que envolve o trabalho de um editor de livros. Confira na íntegra:











 

O elitismo dentro das grandes editoras

O Arena da Palavra é um podcast com escritores, poetas, editores, livreiros e diversos outros profissionais que vivem da palavra escrita e falada. Neste episódio, o convidado foi PC Marciano, que está à frente da Editora Gráfica Heliópolis, promovendo a circulação de novas vozes e narrativas na literatura brasileira e fortalecendo o público leitor em várias regiões do país.

​O editor revela no podcast o poder da literatura como algo coletivo feito para o coletivo, e como as editoras tradicionais excluem autores iniciantes e desfavorecidos economicamente, ou advindos de regiões remotas e periféricas nas cidades. 

Escute o episódio completo abaixo:

PC Marciano e a importância das editoras independentesArena da Palavra
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Publicar: ato de resistência

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Foto: Max Felipe/Divulgação

Uma das autoras pretas mais consagradas do país, a filósofa e escritora antirracista Djamila Ribeiro foi escritora independente e encontrou dificuldades de publicar com editoras tradicionais. Em entrevistas recentes, Djamila revelou que carregava seus livros na mochila para vender, seguindo o mesmo percurso de muitos escritores independentes, com a esperança de que seu trabalho fosse notado. 

Para evitar a dependência das editoras e conseguir divulgar suas obras, ela organizou lançamentos em espaços públicos, além de criar o selo editorial Sueli Carneiro, que hoje está na editora independente Jandaíra.


"É importante que as pessoas nos apoiem, inclusive economicamente, porque esses projetos são marcos civilizatórios. Se não há literatura de autoria negra num país de maioria negra, é porque algo está muito errado", destacou em entrevista à Maire Claire.

​O mito do “não julgue o livro pela capa”

Muitos leitores compartilham a frase icõnica "não julgue um livro pela capa", mas a verdade é que tudo influencia na escolha de um livro, denuncia a revista literária Vida Secreta: a capa, o título, o autor, a localização e principalmente, a editora.  A vontade do leitor é quase uma questão de sorte, mas o primeiro impacto vem da capa, que é o elemento mais visível e reconhecível, aquele que nos chama a atenção à distância e que, ao encontrarmos novamente, será familiar. É importante enfatizar que livros de grandes editoras são reconhecidos, lembrados e valorizados pelos leitores, sem que eles mesmo percebam, embora essas obras reflitam mais luxo que criticidade.

Amazon monopolizou mercado literário


A dominação de empresas de livros físicos e digitais como a Amazon no mercado pode restringir o acesso de autores independentes e editoras menores, limitando a diversidade de publicações e ideias. É o que revela o estudo feito por Pamela Ketlyn Pereira de Farias este ano na monografia "Mercado editorial no Brasil: uma análise referencial". 

"A concentração de poder em grandes conglomerados editoriais pode levar à redução de vozes e perspectivas, bem como à redução da oferta de títulose padronização de conteúdo e afetarnegativamente preços e contratoscom autores, reduzindo o capital do setor. É essencial apoiar políticas e regulamentações, como a Lei do preço único", diz a pesquisa.

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Editoras independentes reagem à Amazon


O proprietário da Editora Elefante, Tadeu Breta destacou em 2023 que, embora o impacto mais significativo da Amazon seja sobre as livrarias e editoras, a gigante do varejo afeta toda a cadeia produtiva do livro. A Elefante lançou o livro "Contra Amazon e Outros Ensaios sobre a Humanidade dos Livros", escrito pelo autor espanhol Jorge Carrión, em 2020. "É uma incógnita como funciona o algoritmo da Amazon, como eles calculam os descontos oferecidos", disse Breda à BBC.

"Às vezes ela vende a preços que eu mesmo que produzi os livros não conseguiria vender. Não é sustentável. Ela vai sufocando as editoras, com descontos cada vez maiores. Para compensar financeiramente esse desconto maior dado à Amazon, o preço de capa do livro padrão tem que subir necessariamente, sobretudo nas outras livrarias", completou ele.

IA: recomendações na Amazon e autoria
 

A originalidade dos autores independentes ficou ainda mais à mercê com a expansão do uso da inteligência artificial (IA) no meio literário e para completar, a maior varejista de livros do mundo começou a indicar obras escritas por algoritmos, como mostrou uma reportagem do Núcleo Jornalismo, que identificou dezenas de títulos à venda criados a partir do ChatGPT e do MidJourney, ranqueados na página da Amazon em 2023. Foram identificadas 59 publicações do gênero.

Este ano, o webinar "IA na Educação: Implicações para os Direitos Autorais e a Produção de Conteúdo", ministrado pelo professor Sérgio Branco, do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), discutiu o impacto da IA no mercado editorial brasileiro.​

Editores de grandes editoras ouvidos pelo jornal O Globo destacaram em suas falas que "não vê problema", que é uma "boa provocação", e que era preciso um "uso responsável" da ferramenta para a produção de livros, outra questão que surge para o literatura independente por causa dos direitos autorais e da reflexividade.

Política Nacional do Livro e Regulação de Preços

A Lei Cortez, projeto de lei 49/2015 para fixar os preços dos livros e apoiar o crescimento das pequenas editoras, nunca foi implementada no Brasil e permanece em tramitação. A proposta visava equilibrar o mercado editorial, limitando descontos excessivos e garantindo condições mais justas de concorrência com grandes livrarias e editoras.

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​Uma matéria da Revista Fórum entrevistou livreiros e editores de São Paulo e comentou sobre o poder de mercado da Amazon. De acordo com a reportagem, "os livros são usados pela empresa como chamariz, com os preços muito abaixo até mesmo do custo. O fato, que pode criar em um primeiro momento conforto ao consumidor final, causa um efeito devastador no mercado."

 

“Quem deve pensar o preço final do livro é o editor, não se deve deixar para os pontos finais, os varejistas, essa função, porque dessa forma sempre o gigante mata o pequeno”, disse um dos entrevistados, José Luiz Tahan, proprietário da livraria e editora Realejo.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Mainstream editorial em dados (%)

Compra de livros físicos

nos últimos meses[%]

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Fonte: Relatório Final da Câmara Brasileira de Livros do ano de 2023.

Influenciadores e "personalidades":
o foco de editoras tradicionais

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Booktubers, booktoks e bookinstagrans

As editoras independentes têm recorrido aos booktubers, booktoks e bookinfluencers para divulgar seus livros. A estratégia tem ajudado a democratizar um pouco mais o ambiente literário nas redes e engajar autores independentes, no entanto, eles também são alvo do grande mercado.

Assista a dois bookhauls diferentes:

Bookinfluencers apresentam resenhas, booktags, entre outros conteúdos de divulgação e se tornaram um dos principais mobilizadores da literatura. Segundo o artigo científico intitulado "A influência dos booktubers na divulgação e comercialização de livros no mercado literário", da IFSP-Suzano publicado no ano de 2016, pelo menos 58% dos leitores compram livros indicados por bookinfluencers nas redes sociais contra 41%. 

Nos últimos anos, editoras tradicionais têm concentrado esforços em publicar livros de influenciadores digitais e personalidades, apostando no alcance e na popularidade para impulsionar vendas. Estratégia que reflete a busca por maior retorno financeiro e competitividade. Embora essa tendência tenha  ampliado o público leitor, ela também tem aumentado o desinteresse por  autores independentes e editoras independentes. Livros que destacam a biografia de famosos têm sido os mais recorrentes.

​​

Como ajudar editoras independentes?

 Os desafios da publicação e da distribuição

A revista Escritus entrou em contato com Rafaela Perensin, representante da Editora Perensin, de Juiz de Fora, para entender  os desafios da publicação e da distribuição de livros produzidos por editoras pequenas, bem como  a conexão dessas editoras com autores iniciantes no processo de feitura da obra. independente.

Vídeo: Alice Andersen

Entrevista Rafaela PerensinPodcast Escritus
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 A bibliodiversidade do Skoob

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Desde 2009, a rede social de livros brasileira Skoob permite a resenha de diversos livros, entre eles, aqueles produzidos por editoras independentes, o que possibilita um maior contato com grande parte dos leitores fora do mainstream literário. Um deles é, por exemplo, o livro "Feminismo para os 99%", da editora Boitempo:

Citação Escritus

​"Um escritor não tem o direito de rebaixar o seu trabalho em nome de uma suposta maior acessibilidade. A sociedade, isto é, todos nós, é que temos o dever de resolver os problemas gerais de acesso e fruição dos bens materiais e culturais"

Fala do escritor José Saramago durante uma entrevista no ano de 1978.

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Foto: Creative Commons

"

Flipei como alternativa à Flip 

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Foto: Divulgação/Flipei

A Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (FLIPEI) é um evento literário que tem ganhado cada vez mais destaque no cenário cultural. Com uma proposta engajada, a FLIPEI se diferencia de outras feiras literárias ao priorizar a produção de editoras independentes e promover um debate mais crítico e político no mundo literário.

Apesar de ser a maior casa parceira da FLIP nos últimos anos, a FLIPEI mantém sua essência de resistência. Nascida nas margens do rio Perequê-Açu, a feira literária cresceu e, em 2023, enfrentou desafios em Paraty e se mudou para a Central 1926, no Bixiga, em São Paulo, onde acontece todos os anos. Saiba mais neste link.

Editoras independentes brasileiras para conhecer

Veja e acesse as redes sociais:

Mais editoras:

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por Alice Andersen, na disciplina de Laboratório de Jornalismo Digital UFJF
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